49 anos da foto na Abbey Road: A travessia de uma rua e o fim da mesma

Abbey Road, 1969. O quarteto de Liverpool estava vendo o ano, em meio a virada para uma década definitiva dentro do rock, ruir e indicar com maior força a ruptura da banda. Os Beatles construíam naquele ano o penúltimo álbum da carreira, mas o último a ser gravado. Os problemas de gravações do antecessor “Let it Be“, após conturbadas divergências e rumos distintos que todos estavam indicando, propiciaram um cenário instável e incerto. Era como se todos eles estivessem andando em ruas tortas, caminhando a passos falsos, receosos. Mas bastou uma linha reta.

Se pensarmos na famosa e mega citada anedota “Por que a galinha atravessou a rua”, podemos fazer uma aplicação (dentro do contexto histórico e pessoal) aos já famosos Ringo, George, John e Paul. “Por que The Beatles atravessou a rua?”. A obviedade em chegar ao outro lado ganha um adorno quase desesperador na época. O outro lado era o que mais era buscado por todos.

Durante as gravações do álbum, a concepção da capa ainda não havia sido identificada. As ideias primárias eram rasas e não traziam significado para os rapazes e tampouco apelo comercial, insistência da gravadora EMI ao tempo. Paul, então, se juntou com os outros membros e decidiu perceber o local em volta do famoso estúdio Abbey Road.

Ideia de quem?

Era um caminho a todo momento percorrido, familiar. E apesar de direcionar eles a um lugar que resultaria no maior nível de estresse possível de todos, manifestava importância. Então, a ideia da foto. Mas quem poderia registrar a imagem? John, então, viu sua já amada Yoko Ono trazer um contato de um amigo próximo; o escocês Iain Macmilliam.

Fizeram um rascunho, planejando a estrutura de como seria a sessão. Como manejar um ensaio rápido, com poucas fotos, para não estressar o quarteto, que já estava irritadiço. Lennon teria dito que: “Pensei que viríamos para cá gravar um álbum, não posar para fotos”.

Sketch for the Abbey Road album cover photo shoot, 8 August 1969
O esboço de como viria a ser a capa do disco.

Mas para alívio de John, Macmilliam havia planejado tudo. De acordo com o próprio, em entrevista ao jornal britânico The Guardian anos depois, contou que contrataram um policial, para que ele interrompesse o trânsito no cruzamento com autoridade, dando tempo à Iain de subir na escada bem ao centro da faixa de pedestres e fotografasse a caminhada mais famosa da indústria da música.

No entanto, o mesmo fotógrafo, na mesma entrevista, também confessou quem idealizou tudo. “Devo dizer que foi tudo ideia do Paul. Alguns dias antes de fotografarmos, ele desenhou um rascunho de como ele imaginou a capa. O resultado ficou quase que idêntico. Eu tirei fotos deles atravessando em um sentido. Depois, deixamos os carros passarem para melhorar o trânsito. Quando parou novamente, tirei mais fotos deles cruzando a faixa no outro sentido”, explicou Iain.

The Beatles prepare for the Abbey Road album cover photo shoot, 8 August 1969
McCartney arrumando Ringo antes de cruzarem a faixa no outro sentido.

A morte de Paul McCartney e a sandália

Quando os quatro atravessaram novamente a faixa, Iain tirou mais algumas fotos, para tentar angular a perfeição nesse sentido. Mas entre essa segunda passagem e a primeira, algo mudou nas vestes de um deles. Paul, que cruzou as listras brancas descalço no 1º sentido, resolveu usar um par de sandálias brancas para retornar à origem.

Quando essa foto específica saiu, os fãs – seguindo à risca a cartilha de fandom -, teorizaram a morte do guitarrista, que teria sido atingido por um carro e morrido. Com isso, para não prejudicar a sessão e também para criar um mistério, a banda teria colocado um dublê de corpo para cumprir o papel na hora de voltar.

Iconic image: Taken at the same time as the famous Abbey Road album cover in 1969, this picture clearly shows Paul McCartney, third from left, wearing a pair of sandals
Para o outro lado, tudo diferente?

Essa teoria se manteve por bons anos, até que ninguém mais acreditou que um dublê interpretaria identicamente McCartney, apresentando toda a força, técnica e carisma que um dos integrantes remanescentes da banda sempre possuiu.

Mas serviu para valorizar a imagem. Em 2012, a foto tirada por Iain foi mantida em uma agência de comunicação, que colocou à venda em um leilão. A imagem, ainda que menos icônica que sua irmã maior, foi disputada e arrematada em um lance de quase 20 mil libras (quase R$ 100 mil).

A foto a ser escolhida uniu algo que não estava mais acontecendo na banda. A perfeita sincronia, a passada contada de todos, abrindo as pernas em um movimento quase que único. Essa harmonia – lírica, instrumental, poética -, foi o que movimentou toda uma discografia influente e até hoje, ouvida e considerada uma das maiores da história. 1969 foi um ano amargo, difícil para eles.

Pausa para um cigarrinho.

Abbey Road” foi o último álbum gravado pela banda e talvez, o que sacramentou a passagem sonora dos Beatles pelo mundo. O disco até hoje é requisitado e comprado em sua versão de vinil. De 2010 a 2012, foi o bolachão mais vendido do mundo, atingindo mais de 100 mil cópias nesse período.

A dupla “Something” e “Come Together” ainda são singles tocados por bandas homenagens, cantados em karaokês, bares e em casas de amigos. Apresentou uma sonoridade mais sintetizada, com guitarras e efeitos de distorções que, ao mesmo tempo que configurava referências ao componente do hard rock clássico da banda, apresentava um escape de alguns deles, principalmente de Lennon.

O álbum que não leva o nome da banda, nem o nome do disco. É um símbolo, uma iconografia responsável por sintetizar um poder dos Beatles, que naquela ano, era só um resquício. E em resquícios, “Abbey Road” se formou. Contou e apresentou o fim de uma das maiores bandas do planeta. E nada mais justo, do que ter uma das capas mais icônicas de todos os tempos.