A fuga do Senhor dos Exércitos em “First Reformed”

A fé e as religiões presentes nos Estados Unidos possuem camadas e manifestações diversas. Historicamente, o país, desde a colonização dos ingleses até sua independência e por assim, contextualizando até hoje, é partido em diversas bases do cristianismo: igrejas batistas, adventistas e principalmente, os protestantes.

Em “First Reformed“, novo filme de Paul Schrader (roteirista de “Taxi Driver“, “Gigolô Americano” e “A Última Tentação de Cristo“), há uma apresentação bastante crível sobre o homem protestante e suas próprias ramificações; a devoção pela Igreja First Reformed e à comunidade, mas a abstinência da fé, da crença do homem santo.

No roteiro, Schrader colocou o padre Ernst Toller (referência ao dramaturgo expoente do expressionismo alemão na literatura), interpretado com a mesma devoção que o religioso possui por Ethan Hawke, dentro de um espiral moldado às quebras constantes de  noção de fé. Não que o filme tenha documentado um homem totalmente ciente das irregularidades. Ao contrário, o padre Toller é um homem irregular.

Vestido pela bata negra e ausente da vida fora dos dogmas e rotinas sacras, Ernst é solicitado por uma cidadã local, Mary (Amanda Seyfried) a ser ouvinte e aconselhar o marido, que recentemente saiu da prisão após participar de um protesto pacífico, que visava conscientizar as pessoas sobre poluição, aquecimento global e degradação do ambiente.

Essa interação inicia em Ernst uma implosão. De um homem que não era explícito, palpável; o remoer ao passado, expondo o arrependimento e o luto pelo filho morto na Guerra do Iraque, após o pai convencer  a cria a se alistar no exército, indo contra à mãe. Do filho, vinha o amargo de talvez ter colocado suas digitas na arma que disparou a bala fata. Da ex-esposa, a culpa, transformada em porte católico.

Pense no padre como uma espécie de guarnificação; uma fortaleza, um castelo. Em 1529, Martinho Lutero, o religioso responsável pela quebra do catolocismo, culminando na reforma protestante, escreveum hino chamado “Castelo Forte”. Em inglês “A Fortress is Our Mighty God”.

Nesse hino, possuidor de melodia rítmica, mais leve, distante da melodia isómetrica e matemática dos mantras católicos, Escrito originalmente em alemão, Lutero se baseou no Salmo 46:

“Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia.
Portanto não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares.
Ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela sua braveza. (Selá.)
Há um rio cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo.
Deus está no meio dela; não se abalará. Deus a ajudará, já ao romper da manhã.
Os gentios se embraveceram; os reinos se moveram; ele levantou a sua voz e a terra se derreteu.
O Senhor dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio. (Selá.)
Vinde, contemplai as obras do Senhor; que desolações tem feito na terra!
Ele faz cessar as guerras até ao fim da terra; quebra o arco e corta a lança; queima os carros no fogo.
Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus; serei exaltado entre os gentios; serei exaltado sobre a terra.
O Senhor dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio. (Selá.)”

A fortaleza de Toller começa a ruir. Primeiramente, pelas doenças iniciadas, consequências do abuso de álcool ao longo da vida. Depois, pela percepção da falha humanitária, que criava sua própria catástrofe, seu apocalipse. Ao lançar a pergunta “Será que Deus pode nos perdoar?”, ao almoçar com outro reverendo e com o dono da empresa que patrocina a querida First Reformed, Ernst se vê já sem seu Senhor dos Exércitos.

A figura central, analisada de maneira feroz e até mesmo cruel por parte do roteiro e até mesmo pelos pontos técnicos do filme, como a fotografia cinza e monocromática, irrompe. Parte em uma cruzada (as referências sacras são muitas aqui, perdão) não em busca de soluções que iriam melhorar a condição de vida do ser humano na Terra. Tardiamente, segundo si mesmo, concebeu a opinião de que nada mais adiantaria.

Era praticamente um homem descompromissado com a realidade e com os espíritos de fé. Talvez usar o nome da mãe de Deus para ser o contrapeso, na verdade, a tirada de peso das costas de Ernst, tenha sido só um complemento ocasional. Mas a casualidade não é uma característica nos argumentos de Schrader. Na verdade, há um significado para tudo, mesmo que soe pretensioso.

A principal cena entre os dois constrói visualmente um reforço da persona de Toller. Nas divagações, nas externalizações e fugas corporais, há um homem que busca de maneira solene a paz. Um refúgio, um mar calmo dentro de si. Mas ao cogitar o mar, a influência humana na sua mentalidade polui as águas; o plástico flutua, o petróleo enegrece, a fauna morre.

Em “A Última Tentação de Cristo”, mais outra parceria entre Martin Scorsese e Paul Schrader (direção e roteiro, em ordem), o texto do filme não buscava vingar uma figura e muito menos, colocar Jesus sobre uma aura distante do homem. Adaptado ao livro homônimo, do grego Níkos Kazantzákis, a obra era intimista, seguindo um tom de construir uma persona mais tangível, mais sensível.

Schrader trouxe à First Reformed essas mesmas características, pois quando o filme delega em seu roteiro as responsabilidades que o padre Ernst cria, não há uma dissecação que tornasse o personagem frio, obsoleto, desprovido. Hawke fez uma atuação que coube dentro dessa sequência de ações consequentes, compreensíveis.

A lógica do personagem é assegurada pelo argumento do filme. “First Reformed” não se propõe a criticar a religião e a hipocrisia dos homens que a comanda, regionalmente ou racionalmente. É na verdade uma contestação sobre como um ser humano, provido de fé, de conceitos de bondade e comunhão, pode ser desestabilizado por esses mesmos ideais.

É uma narrativa que mostra, em uma sequência de ações e de reações, o peso da fé sobre um homem que decide carregá-la até os seus últimos momentos de vida. A cena final, catártica e climática, assegura esse tom mais punitivo; é um sacrifício presente dentro de uma causa imaterial, mas não inumana.