Gustavo Bertoni reencontra sua vulnerabilidade em “Where Light Pours In”

O que leva um artista a criar uma nova obra? Seja lá pela renovação de seus feitos ou pelo comprometimento do andamento da mesma com os seus fãs, toda a inspiração começa com alguma história ou desejo. Com “Where Light Pours In“, não foi diferente. Gustavo Bertoni, vocalista e guitarrista da banda Scalene, aproveita a oportunidade para um processo intrínseco de auto-análise, buscando reencontrar sua leveza, voltando o olhar para dentro de seu eu. Compondo mais uma vez um álbum cheio em inglês, o musicista reitera que “faz bem termos momentos para olharmos onde escondemos coisas de nós mesmos, para, em seguida, poder entender que são nestes pontos que devemos deixar a luz entrar”.

De maneira despretensiosa, sem esperar e nem menos imaginar o que poderia vir em seus primeiros minutos de sua duração, o segundo disco do currículo de Gustavo Bertoni me pegou logo de surpresa, isso porque, a citação clara a “Blackbird” dos Beatles introduziu da maneira mais comovente a doçura e vulnerabilidade que iriam me acompanhar ao longo da audição deste projeto. A faixa em questão, “Bluebird“, direciona pelo menos em boa parte o tom do registro, com uma pegada mais folk e melancólica, continuando o caminho construído pelo seu antecessor e primeiro álbum, “The Pilgrim“, de 2016. No que se refere a sua bela voz e a síntese econômica criada pelos seus precisos acordes de violão, Bertoni proporciona sem dúvidas uma excelente faceta mais madura de sua persona musical.

Com ecos musicais variados, que vão dos inigualáveis Fletwood Mac, Simon & Garfunkel e Beatles aos contemporâneos Big Thief, Sufjan Stevens e Dustin Kensrue, o músico alcança um ótimo resultado ao criar uma conexão entre suas referências musicais, idealizando uma identidade diversificada ao seu trabalho. Exemplo disso é a antepenúltima faixa do disco, “Snake Charmer“, propondo um real exercício a intimista sonoridade do compositor. Músicas como “Where Light Pours In“, “In The Long Run” e “Apathy Dance” apresentam as mesmas características, entretanto incorporam ainda mais um aspecto moderno, entrelaçando bem os gêneros que se originaram do rock de raiz a estética do mundo pop, criando composições hibridas e honestas em sua essência.

Liricamente falando, as composições trabalhadas em narrativas sobre as imensuráveis incertezas da vida, dialogam muito bem com o clima de melodias e arranjos suaves, exibindo a todo o momento o domínio do artista sob sua obra. Os pontos altos do disco ficam por conta das belíssimas, “Great Green Grass“, “Wanderlust” e “Be Here Now” que foi escolhida como o primeiro single desta nova empreita do brasiliense. Destaque para a vital produção de Samyr Aissami, que também atua na percussão e bateria do novo registro.

Revelando-se como uma das grandes apostas da música brasileira, Gustavo Bertoni cruza sabiamente a linha que divide o seu trabalho quanto integrante da banda Scanele, do seu trabalho como artista solo, concebendo de fato atmosferas completamente singulares e livres de receitas saturadas do mundo da música. De maneira eloquente, “Where Light Pours In” deve agradar os fãs e encantar até os ouvintes mais descrentes.


Flávia Denise

Jornalista & Music nerd. ;)