“Mandy”: Cinegnose e a vingança cósmica

Em maio de 2013, o autor Wilson Roberto Vieira Ferreira lançou a primeira versão de seu livro, “Cinegnose”. Ferreira estudou de maneira hermética o cinema americano dentre um intervalo de dez anos (1995 – 2005), percebendo elementos que fizeram alusão místicas ao Gnosticismo.

Gnósticos foram considerados os primeiros heréticos pelo Cristianismo e ao longo do tempo, apresentava nas ideologias, crenças e construções morais diversos conflitos e contradições, expondo desorganização. No entanto, a constante representação dessas narrativas continuou ao longo do audiovisual, tendo como mais recente manifestação o filme “Mandy”.

Dirigido pelo ítalo-canadense Panos Cosmatos, há uma continuidade que o diretor utiliza em “Mandy” que já outrora concebeu em seu primeiro filme, “Além do Arco-Íris Negro”, onde ambos apresentam uma jornada psicoespiritual aos personagens principais; uma experiência lisérgica em contextos expurgatórios.

“Mandy” traz Nicolas Cage interpretando o lenhador Red Miller, que vive em uma cidade montanhosa nos Estados Unidos junto com sua namorada Mandy (Andrea Riseborough). Ambos dialogam no começo do filme sobre uma sinergia cósmica que os cercam. Mandy faz desenhos contextualmente místicos e enigmáticos. A jovem é vista por Jeremiah Sand, um líder cultista gnóstico, que acredita que Mandy possa significar uma resinificação na religião.

Radicalmente, ordena a invasão à casa do casal para ter Mandy para si. Após um pequeno rito de apresentação e experiência sintética, os planos não saem como Jeremiah acreditava, o que o leva a começar a jornada de vingança para Miller.

Visualmente, o filme é montado seguindo uma lógica narrativa explícita: a primeira parte apresenta a interação dos personagens principais e esse grupo proto religioso, chamado de Caveiras Negras. Analisando seus códigos crentes e de fé, nota-se que são gnósticos.

Segundo o livro “The Gnostics: The First Christian Heretics”, de Sean Martin, os Gnósticos são grupos religiosos que acreditam receber conhecimento diretamente de Deus, desrespeitando dogmas estabelecidos pelo Cristianismo, que os classificavam como hereges. Na filosofia e nas artes, Carl Jung, William Blake e Friedrich Nietzsche chegaram a dialogar com o teor gnóstico da religião.

Na Bíblia, há algumas citações em passagens nos livros de Atos e também do apócrifo “Atos de Pedro”, onde fazem referência a um homem chamado Simão, o Mago, uma espécie de feiticeiro da cidade de Samaria, que durante uma conversa com o apóstolo Pedro, tentou comprar o poder da Palavra, quando fora repreendido por Pedro.

Em “Mandy”, Jeremiah possui nome de um profeta bíblico, mas que contradiz severamente as crenças clássicas do Cristianismo. Certo de que o sacrifício era necessário, o longa-metragem passa de um art-house metafórico para um filme estilo trash de Rob Zombie, com um uso constante de violência gráfica e rompante psicológico.

Entretanto, essa mudança é gradativa e funcional. As sequências localizadas na hora final são bem direcionadas e construídas, presentas nas motivações emotivas presentes no argumento. Não há uma banalização da violência e nem uma justificação complexa; é simples, objetiva e guiada integralmente por Nicolas Cage.

E Cage sabe exatamente como ser essas pequenas fórmulas: o personagem que quebra psicologicamente, quase em um transe cósmico (alusões que a fotografia saturada em vermelho e roxo e a visceral trilha sonora póstuma de Johánn Johánnsson fazem), partindo para uma absoluta insanidade, sem nenhum código moral ou ético.

Suas passagens durante a matança, indo aos poucos executando desde seres metamorfos até os líderes do grupo, abrem passagem para uma exibição quase artística da violência. Nessa concepção narrativa, o filme vai aos poucos destilando o descompromisso e mergulhando na fábula da vingança.

“Mandy” apresenta alguns minutos de conflito. Não que a metade final precisasse manter o conceito da mitologia cósmica e da representação lisérgica da fé, mas a personificação em Cage de um Deus punitivo, encaminhando para o final, desgarra-se do sentido mais literário do filme.

Novamente, supracito que a obra não precisa manter compromisso e uma base mais comedida, até porque, “Mandy” tem como principal destaque óbvio essa glorificação da violência e do gore enquanto manifestação artística, representando um homem que já não está mais em um plano social, lúdico, consciente.

Entretanto, é uma obra que pode ser incômoda justamente quando abraça essa mudança abrupta, mesmo que ela tenha sido justificada organicamente. No entanto, a violência e o rompante consciente são os principais núcleos narrativos, que se transformam: na origem, uma abstrata atmosfera lisérgica, atravessando para um escapismo brutal.