O Abraço da Serpente: Xamanismo, Animal de Poder e Ayahuasca

Ao estudar ritos e memoriais de outras religiões, acabei me deparando nesta semana do dia 1º de agosto com o xamanismo. Xamã, dentro de uma sociedade baseada na concepção da religião e da fé, é um indivíduo que através de rituais guiados pelas divindades espirituais, é o sacerdote, com atribuições de comando e também funções de cura e ativação astral.

Em muitos conceitos espirituais, sejam os mais filosóficos ou os mais oníricos, a presença de um ser superior, dotado de sabedoria em abundância, é o que motiva muito dos crentes a buscarem-o em uma situação de reconfigurar-se, de se transformar e compreender aquele saber. Beber da fonte, uma inesgotável riqueza de conhecimentos.

Em minha biblioteca de filmes, veio imediatamente uma obra que traduz em narrativa imagética e textual, esses saberes, às vezes, esquecidos e por conta de intervenções do homem branco e de sua inquisidora religião, sobrepostas. Se trata do longa-metragem O Abraço da Serpente, produção colombiana lançada em 2016, dirigida por Ciro Guerra. Neste filme, narra-se a exploração de um pequeno grupo de homens brancos em busca de uma cura nova, a partir do último sobrevivente de uma tribo, localizada na região amazônica.

Essa relação é construída dentro do roteiro de uma maneira singular e usando o contraste dos dois homens, dotados de crenças, questões e até mesmo limitações próprias, fazendo uso delas para unirem-se em busca dessa sagrada cura. Ao longo do filme, é apresentado em cunho histórico os processos de colonização por parte do imperialismo europeu, da desconfiguração da identidade indígena, causada pela intervenção do homem branco sobre sua cultura, seu comportamento e sua crença.

No xamanismo, há o curador. Através de seu contato com a natureza, com seres espirituais que se manifestam através desse ambiente, processa suas curas e suas criações, entrando em uma jornada de limpeza e de consciência de seu papel perante os objetivos dados ao xamã.

Dentro da prática, há um conceito filosófico e etnomédico chamado “Animal de Poder”. Há diversos mitos, estórias e narrativas utilizadas para apresentar aos não-praticantes esse termo. Em resumo, esse ser é onipresente, porém não dominante. Ele se apresenta a partir da busca do ser humano aos processos de mutação e busca pela sabedoria – em um contato aos ancestros, às primitividades, à sabedoria pré-histórica -, e lhe oferece um saber místico, poderoso e suficiente para transformá-lo, lhe gerando força para quebrar limites e barreiras.

No filme, o animal de poder destacado é do título. No entanto, a subversão do estereótipo da serpente – traiçoeira, peçonhenta -, é esclarecida no roteiro. Segundo as cartas xamânicas presentes no livro “As Cartas do Caminho Sagrado”, da autora Jamie Sams, famosa pela paranormalidade, ilustradas no Brasil pela editora Rocco, a Serpente representa o processo de transmutação.

Carta 06, A COBRA / 0 Poder da Transmutação

Cobra…

Venha deslizando

Com fogo nos olhos

Morda-me,

Desafia-me,

Permita

Que eu me realize.

Seu veneno transmutado

Acende a chama eterna

Abra-me as portas do céu,

Cure-me mais uma vez!

Em O Abraço da Serpente, o xamã Karamakate é o principal guia da viagem do explorador alemão Theo. No entanto, não é uma viagem somente marítima e de locomoção física. És espiritual e pelo xamã, há a busca pela cura que gerará o dom da imortalidade. Poder esse, representado pelo totém da serpente, transmutado e metaforizado na figura do líder curandeiro.

É interessante observar que o argumento do filme se propõe não somente discutir os contrastes, a figura histórica de opressão do homem branco ao ser indígena, da busca pela identidade própria. Ele, em sentido também histórico e linguístico, monta a cultura e o poder religioso em um caráter conciliador, generoso e genuíno.

Quando Theo apresenta seu quadro perigoso, a partir dele não se inicia somente um rito de cura pela doença, mas de cura de seu espírito, que segundo as tradições xamânicas, deve permanecer e seguir em paz, harmonizada ao físico do homem.

Os Caxínauas, etnia indígena que possui tribos espalhadas pelo Acre, possuem entre si uma lenda bastante famosa, a da Jiboia Branca. Em uma comunidade falada nesse conto, os habitantes viviam encantados pelo saber que a Jiboia Branca lhe transmitia, já que era portadora de um conhecimento riquíssimo e praticamente onírico, que resultava na transcedência astral.

E dentro desses saberes, há o poder da cura e transformação através das plantas medicinais. Uma delas é a ayahuasca, uma erva gerada a partir da mistura de diversas plantas e cipós. Mesmo que fora dos ritos originais, a planta é utilizada hoje em dia em outras cerimônias e até mesmo uso individual, com o intuito de encontrarem um momento de clarevidência, sabedoria e bem-estar.

O Abraço da Serpente é uma produção que, de forma inteligente, apresentou todo esse universo longe das representações vislumbradas e arquetipadas, dando ao próprio portador original desse conhecimento e folclore, a oportunidade de apresentar o tom ritualístico. E também, distante da representação gráfica e de argumentação histórica pobre sobre a ocupação do homem branco à sociedade indígena.