Wes Anderson e seus cães danados em “Ilha dos Cachorros”

Não que o termo fábula, supracitado no texto, coloque em cheque a empatia social que “Ilha dos Cachorros” possui. De fato, é uma contradição. O uso da palavra aqui percorre na verdade uma junção de dois fatores importantes na filmografia de Wes Anderson. A criatividade narrativa – por meio de roteiro e estética -, para contar uma estória simples. Contudo, a cativação é sempre um catalisador de seus filmes.

Em “Ilha dos Cachorros“, a narrativa reproduz um cenário de empatia, possuindo amarrações de cunhos sociais e realísticos, porém ainda distantes de uma complexidade. O feito do cineasta é colocar esses tópicos sob um ponto de vista subjetivo, mas sem permitir que uma imparcialidade quebre a interpretação.

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Um governo autoritário proto-fascista comanda a cidade de Megasaki. É instaurado, através da mídia e da propaganda estatal, um pânico social por conta de uma suposta epidemia causada pelos cachorros. Segundo o Prefeito Kobayashi, os animais geram um catálogo de doenças à população e, seguindo conselhos do Ministério das Ciências, resolve isolar os cães em um depósito de lixo afastado da cidade.

Essa reação imediata impõe um debate sobre o populismo e a falta de empatia, mas principalmente, desacredita o poder da ciência em sua função de estudo e cura. Por isso, a ação também tem sua reação negativa, comandada por um grupo anárquico científico-político. Essa conjectura política, por mais que tenha sua intenção, é acertadamente não instigada a todo momento. Isso porquê o roteiro se cumpre quando apresenta seus personagens principais: Rex (Edward Norton), Duke (Jeff Goldblum), Boss (Bill Murray), King (Bob Balaban), um grupo de cães residentes há muito tempo na ilha, liderados por Chefe (Bryan Cranston). Sua rotina de revirarem todo lixo que chega à ilha é alterada quanto aterrisa um pequeno avião, pilotado pelo garoto de 12 anos Atari (Koyu Rankin).

Atari é sobrinho do Prefeito Kobayashi e teve seu cão-guarda e parceiro Spots (Liev Schreiber) mandado à ilha como um dos primeiros, independente de sua posição dentro da sociedade, mesmo que as diferenças entre os de pedigree e os vira-latas estejam mais implícitas do que propriamente investigadas. Porém, reitero que o fato do roteiro não aprofundar esse cenário social a todo momento é um acerto, já que o cerne narrativo do longa-metragem foca muito bem na relação e criação de empatia entre o menino Atari e os cães.

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E por falar neles, o trabalho dos atores em cada um de seus personagens impressiona. Não só o design de som e a dublagem, até porque os fatores técnicos do filme são praticamente impecáveis. Impecáveis na questão original e também em suas referências, que vai desde animações do Studio Ghibili quanto às vestimentas sociais dos filmes de Akira Kurosawa, principalmente “Cão Danado“, de 1949.

Nesse thriller policial, Kurosawa remonta uma estética neo-realista, onde situa o país a beira de um cataclisma social pós-guerra, apresentando de maneira crua um cenário de desigualdade social e de políticas austeras. Kurosawa, famoso por sua liberdade poética em filmes de época, conseguia também indicar uma análise contemporânea. Era definitivamente, um homem diacrônico: de seu próprio tempo e além.

Em “Ilha dos Cachorros“, essa roupagem contemporânea se mescla com a fantasia. Não só pela amarração narrativa, mas também pela consciência na atuação do filme. Cada um dos animais possui suas características e cada uma delas é representada. Enquanto, por exemplo, Spots e Rex são mimados, Chefe, por ser vira-lata, é mais independente e distante de sentimentos, justamente por não ter sido bem tratado quando morava na cidade. E é sobre Chefe, e sua evolução “humana” e o argumento dessa sensação, que “Ilha dos Cachorros” vai promovendo momentos-chave com clareza e coerência.

A passagem de guarda, a procura pelo cachorro perdido ao som da trilha sonora de Alexander Desplat, o transplante humano de rim mais bem representado, em senso estético e anatômico; são cenas que concretizam fatos já antes expostos na filmografia de Wes Anderson: a criação de uma beleza gerada através de situações, no mínimo, irônicas. Há um humor muito leve em “Ilha dos Cachorros“, que permite que o filme se organize orgânicamente e não se perca ao mudar o tom.

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Wes Anderson, em entrevista após ganhar o Urso de Ouro de Melhor Direção no festival de Berlim em 2018, disse que tinha a ideia em mente há cinco anos, aproveitando o tempo para ir montando seu esqueleto de referências a cultura ocidental, seja a mais pop e massificada ou a mais engessada.

Sua função em “Ilha dos Cachorros” foi apresentar um conto doce, simples, longe de sofisticações e sacadas óbvias. Além de utilizar a história, sua localização em espaço-tempo, para homenagear uma cultura disseminada, às vezes, de maneira estereotipada. Anderson foi alvo de críticas por isso, inclusive, vindas de Will Toledo, vocalista da banda de indie rock/emo americana Car Seat Headrest. Não posso dizer se ele está correto. As únicas afirmações a serem adquiridas, ficam por conta da imagem que Wes possui de sua bagagem e banco de referências.