“A Vida Invisível”: Preciso continuar te escrevendo para não esquecer da pessoa que um dia eu fui

Poucas foram as vezes que saí de um cinema tão comovida, com uma sensação de desespero e angustia. Filmes de drama tendem a nos encaminhar para estas emoções, entretanto, nunca vi ou para ser mais clara, senti, algo tão poderoso quanto “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão“. Dirigido pelo cearense Karim Aïnouz e apresentado como um melodrama tropical, o longa é de longe a resposta mais dura ao patriarcado imposto cruelmente em nossa sociedade. A história contada aqui, é a narrativa real de várias mulheres que tiveram seus sonhos podados e arrancados de forma brutal.

No Rio de Janeiro, Carol Duarte e Julia Stockler interpretam as irmãs Eurídice e Guida, provindas de uma família conservadora de portugueses, as duas almejam alcançar destinos distintos. Enquanto Eurídice deseja estudar piano em um importante conservatório em Viena, Guida quer viver intensamente a vida e ser feliz tirando o máximo proveito de tudo. Apesar das duas se encaminharem para objetivos diferentes, é visível o apoio mútuo entre as irmãs. O carinho entre as protagonistas é quase tangível, e o público entende, mesmo que sejam poucas as palavras proferidas nesse sentido quando estão juntas. Rimos e nos divertimos com suas trapalhadas, até que tudo começa a desandar. Estamos nos anos 50 e não há uma linha tênue entre o que é certo ou errado. Como mulher, ou você age de acordo com as perspectivas de seus pais, ou você simplesmente se tornaria um desgosto para sua família.

Partindo desse ponto, a trajetória das irmãs toma um rumo desumano. Enquanto uma acaba cedendo as obrigações impostas pela sociedade, como casar para ser bem vista pela comunidade como um todo, a outra – após fugir para a Grécia – volta para a casa grávida – sem marido e sem um pai para o seu filho. Ao retornar para casa Guida não reencontra Eurídice, e como forma de vingança, seu pai afirma: “Ela está estudando em Viena! Não mora mais aqui“. Sendo expulsa de casa, a unica felicidade de Guida é saber que sua irmã alcançou o que queria. Entretanto, seu pai mentiu, e a talentosa Eurídice ainda está no Brasil, obrigada a viver um relacionamento indesejado e arranjado com Antenor, vivido pelo ator Gregório Duvivier.

Em uma das cenas mais inquietantes deste longa, na atrapalhada noite de núpcias, Eurídice é violentada por Antenor. E é a partir daí que acompanhamos a total anulação da personagem, se tornando algo que nunca desejou ser. Além de mãe e dona de casa, a protagonista vai aos poucos se distanciando de si mesmo, deixando para trás todas as suas aspirações. Enquanto isso Guida dá luz ao seu filho. Ainda confusa e depressiva, a personagem foge do hospital e vai para sua casa sem o bebê. No outro dia, decide ir a um barzinho. Ao notar que seus seios estavam cheios de leite, Guida tem uma espécie de epifania. Decide retornar ao hospital, e assim recupera o seu primogênito. Ao abordar assuntos como a maternidade, Karim demonstra maturidade ao tocar em uma temática considerada por muitas mulheres como um tabu. Dizem que quando nasce um filho, nasce também uma mãe, mas não é bem assim… E a forma como assistimos esse descobrimento de Guida neste aspecto é lindo e muito verossímil a realidade feminina.

Durante 2 horas e 25 minutos de duração do longa, a voz de Guida nos guia. As cartas enviadas por ela a Eurídice nunca foram repassadas. E é dolorido para o espectador saber que nada do que estava predestinado as duas mulheres de fato aconteceu. Quando mais velha, Fernanda Montenegro assume o papel de Eurídice, e descobre que por vários anos sua irmã lhe escreveu cartas imaginando que estaria em Viena. De fato uma das sequencias mais impactantes de toda a narrativa. Indo além do tempo, as cartas traçam um lindo reencontro a jornada das irmãs.

A adaptação proveniente do livro homônimo de Martha Batalha, ganha uma estrutura cinematográfica belíssima. Acompanhada de tons amenos e ângulos que demonstram muito bem a emoção de cada integrante do elenco, a fotografia de Hélène Louvart é simples porém eficaz. Em cenas de maior impacto, a diretora opta por utilizar cores fortes, atingindo de maneira inesperada a experiência do projeto. Atribuída aqui de forma diegética, a trilha sonora criada pela própria personagem de Eurídice, delega um tom ambíguo a película. Ao mesmo tempo que emociona de forma tocante, o piano traz em suas notas, melodias carregadas de terror e aflição.

Existem filmes que vão muito além do que projetam. Filmes necessários, com assuntos que infelizmente ainda perduram nossa atualidade. Idealizados para incomodar. “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” é exemplo certeiro, proporcionando discussões fundamentais ao desígnios injustamente atribuídos a mulheres de todas as partes do mundo. Que as figuras femininas representadas aqui como Eurídice e Guida, possam viver seus sonhos, de forma livre e visível a qualquer um. 


Flávia Denise

Jornalista & Music nerd. ;)

Online Shopping in BangladeshCheap Hotels in Bangladesh