Cinema Nacional além de “Bacurau” e “A Vida Invisível” em 2019

De fato, “Bacurau“, da dupla Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles e “A Vida Invisível“, de Karim Aïnouz foram os principais títulos que o cinema nacional nos ofereceu esse ano. Nós assistimos, e como não poderia ser diferente, as duas projeções agradaram a todos do site. Mas como somos orgulhosos e erguemos a bandeira do cinema que é produzido em nosso país, decidimos ilustrar por meio desse texto que o ano de 2019 foi muito além de “Bacurau” e “A Vida Invisível“. Reconhecemos todo o sucesso das duas projeções, mas é preciso mostrar que a produção de audiovisual no Brasil vai mais adiante do que dois projetos, e que todo ano filmes de alta qualidade estão sendo produzidos em terras tupiniquins.

Para começarmos, nada melhor do que dá o primeiro destaque para o cinema que foi produzido no Ceará.  O cinema cearense nos rendeu dois longas-metragens no qual podemos nos orgulhar. “Greta“, dirigido por Armando Praça, que teve a felicidade de ter sua primeira produção premiada como melhor longa no Cine Ceará 2019 e “Pacarrete“, de Allan Deberton, que conquistou o festival de Cinema de Gramado. O primeiro conta a história de Pedro, um enfermeiro homossexual de 70 anos, fã fervoroso de Greta Garbo, que decide ajudar Jean, um jovem que acaba de ser hospitalizado e preso por cometer um crime. Ele o esconde em sua própria casa até que ele se recupere. Essa relação será essencial para Pedro, mas também causa mudanças surpreendentes em si mesmo e na maneira como lida com a solidão. Já o segundo é sobre Pacarrete, uma professora de dança mal-humorada aposentada que vive em Russas, uma pequena cidade do estado cearense. Ela sonha voltar a se apresentar em um espetáculo de dança para toda cidade. Perto de realizar esse sonho, ela terá que superar alguns obstáculos ao longo do caminho. Vale lembrar que “A Vida Invisível” também é dirigido por um cineasta cearense, onde foi bastante homenageado no Cine Teatro São Luiz, palco da 29º edição do Cine Ceará.

“Pacarrete” de Allan Deberton

Partindo para Minas Gerais, o cinema mineiro também foi bastante efetivo em sua produção. Dirigido por Gabriel Martins e Murílio Martins, “No Coração do Mundo” apresenta Marcos (Leo Pyrata), que comete pequenos crimes diariamente. Quando reencontra Selma (Grace Passô), uma antiga amiga, ele se convence da possibilidade de executar um assalto bem-sucedido. Mas o plano só pode ser colocado em prática com a ajuda de uma terceira pessoa, e Ana (Kelly Crifer), namorada de Marcos, hesita em participar. Vindo também da terra do pão de queijo, “Temporada“, de André Novais Oliveira nos apresenta Juliana (Grace Passô)  que está saindo de Itaúna, no interior de Minas Gerais, para morar em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Seu novo emprego, em que ela combate endemias da região, cria situações pouco usuais e apresenta a ela pessoas novas, que começam a mudar sua vida. Se adaptando à nova rotina, ela enfrenta dificuldades no relacionamento com seu marido, que também vai para a cidade grande. Para quem ficou interessado, o filme se encontra no catálogo da Netflix.

Outro que segue essa reamada de está na Netflix, é o documentário “Democracia em Vertigem“, da cineasta Petra Costa. Esse não passou despercebido pelo público, já que ele foi exageradamente indicado em redes sociais. O doc é exatamente um testemunho a ascensão e queda de um grupo político e a polarização do Brasil. Além do mais, a produção está na lista de pré-indicados ao Oscar 2020, na  categoria melhor documentário. Outra novidade do nosso cinema esse ano foi a adaptação da história em quadrinhos “Turma da Mônica: Laços“, de Daniel Rezende. A produção nos apresenta a turma mais famosa do quadrinho nacional, Cebolinha, Cascão, Mônica e Magali se reunindo para encontrar o cachorro Floquinho.

“Democracia em Vertigem” de Petra Costa

Infelizmente não tem como descrevermos todos os filmes que nossos cineastas produziram esse ano, mas vamos indicar uma lista (longe de ser completa e definitiva) no qual onde todos os citados tiveram uma contribuição significativa para o audiovisual nacional.  Que no próximo ano o cinema brasileiro continue rendendo bons filmes, e que ele caminhe distante da nuvem negra que persegue e que pretende acabar com sua constante ascensão. Vamos ao que interessa e viva ao cinema brasileiro!


“Seus Ossos e Seus Olhos”, de Caetano Gotardo
“Bixa Travesty”, Kiko Goifman de Claudia Priscilla
“Chorão: Marginal Alado”, de Felipe Novaes
“Marighella”, de Wagner Moura
“Simonal”, de Leonardo Domingues
“Minha Fama de Mau”, de Lui Farias
“Deslembro”, de Flávia Castro
“Hebe”, de Maurício Farias
“Mormaço”, Marina Meliande
“Azougue Nazaré”, Tiago Melo
“A Sombra do Pai”, de Gabriela Amaral Almeida
“Tito e os Pássaros”, de Gustavo Steinberg, André Catoto e Gabriel Bitar
“Chão”, de Camila Freitas
“Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos”, de João Salaviza e Renée Nader Messora
“Indianara”, de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa

O terror sob a perspectiva de Jordan Peele

De comediante a um dos mais cotados nomes para as atuais produções hollywoodianas. Jordan Peele, com seus 40 anos idade, é sinônimo de sucesso desde o lançamento de seu primeiro e aclamado pela crítica, “Corra!“, de 2017. Se utilizando de novas ferramentas para fazer do seu terror, uma visão singular, a parte dos demais projetos vistos por aí, Peele tem se destacado no mercado por harmonizar bem conteúdos que até então, nunca foram abordados em filmes comuns do gênero.

A fim de ganhar uma nova visão sob o espectro de assuntos inquietantemente presentes em nosso cotidiano, Peele vai além da superfície, criando uma espécie de experimento visual e social a cada nova obra sua realizada. Frequentemente comparado ao estilo de Alfred Hitchcock ou até mesmo de Steven Spielberg, que transbordam genialidade em sua filmografia, o diretor não se prende a rotina eventual de acontecimentos de um longa, destorcendo o que nós, espectadores esperamos que aconteça. Essa criação de uma improvável tensão, é sem sombra de dúvidas, a sua maior especialidade.

Para o meu segundo longa-metragem, eu queria criar uma saga. Eu queria fazer algo que fosse mais firme no gênero de terror, mas que ainda perseverasse meu amor por filmes que são distorcidos, mas divertidos“, disse Jordan em uma de suas entrevistas. A ideia aqui é de que ainda que a película se crave em uma ambientação já conhecida pelo público, é inevitavelmente certo que os plot twits aplicados serão consistentes a essência carregada desde o princípio de sua narrativa. O inimaginável deve acontecer, e a simplicidade nisto é a parte mais assustadora.

Analisando a anatomia de suas cenas e os enquadramentos, é inegável que tudo seja meramente um frame. Se utilizando de atributos clássicos do gênero, o cineasta consegue surpreender subvertendo até os momentos mais banais. Em “Corra!”, a cena onde Chris é hipnotizado pela a senhora Armitage, é um exemplo claro de como o jogo de câmeras pode trabalhar em prol de uma sequência assustadoramente convincente. Quando o protagonista se vê enclausurado em sua própria consciência, se questionando se aquilo é real ou não, compreendemos os seus medos sob um novo ponto de vista.

O fenômeno do mundo do entretenimento, está a bordo de algumas das propostas mais interessantes desse ano. Na lista de projetos para estrear em 2019, nos quais está envolvido, estão as séries “Lovecraft Country”, da HBO, “The Hunt”, na Amazon Prime Video, “Weird City” no YouTube e a aguardada refilmagem de “The Twilight Zone”, para a rede de televisão CBS. Com uma agenda cheia, é certo afirmar que o diretor trilha um caminho diverso sem se prender a um único formato, apostando em todas as vertentes que sua criatividade possa lhe render. Bom para seu currículo e excelente para nós, como público e fãs de sua obra.

Indo da fantasia ao real, é quase tangível a concepção que nos é imediatamente apresentada em seus trabalhos. Dito isto, seja como produtor, como diretor ou como roteirista, Jordan Peele se coloca em uma posição muito interessante, trazendo peculiares características em seus personagens que transportam a história um significado muito maior do que somente horror. O medo incorporado a “Corra!” e agora em “Nós“, é puramente universal, e se algum ser-humano é incapaz de observar isso, é porque algo está errado.


Ennio Morricone e seus 90 anos de trilhas sonoras

Você já se imaginou com 90 anos de idade? Imagina o quanto de coisas você teria feito ou teria deixado de fazer com essa idade! E se no momento em que você tivesse nascido alguém te falasse que você teria 90 anos para fazer algo histórico? O quê você faria? Bem, eu não tenho essas respostas para os questionamentos que levantei, mas o compositor italiano, Ennio Morricone, que completa 90 anos neste sábado, dia 10, tem mais de 500 composições que podem responder muito bem todas estas indagações.

De alguma maneira Ennio Morricone já passou pela vida. Sim, a sua! você não sabia? Se você assistiu e gostou de “Os Oito Odiados“, “Era Uma Vez Na América“, “Cinema Paradiso” e a trilogia dos dólares dirigida por Sergio Leone, fique sabendo que a trilha sonora que guia esses filmes são compostas por Morricone.

Filho de trompetista, Morricone nasceu na capital italiana, Roma. Desde cedo demonstrou talento e desejo para seguir a carreira do pai. Com seis anos, o músico já tocava trompete e compôs suas primeiras partituras. Por volta de 1943 a 1954, Ennio estudou no Conservatório Santa Cecilia, na capital italiana, sobe a supervisão do maestro Goffredo Petrassi. Além de tocar em clubes de jazz da cidade acompanhado de seu pai, Morricone passou a trabalhar como arranjador para o canal de TV RAI no final dos anos 50. Ao longo das décadas de 50 e 60, ele fez o arranjo de centenas de músicas. Nelas já era fácil de identificar seu gosto, marcante em seu trabalho no cinema, pela música concreta, pela incorporação de ruídos e sons do dia a dia como parte integrante da sua composição.

O convite para trabalhar com cinema surgiu por meio de Luciano Salce, em 1961. O cineasta o convidou para fazer a trilha de seu filme, “Il Federale“. Mesmo que não fosse uma pessoa que frequentasse o badalado mundo dos cineastas e produtores italianos, os convites foram se tornando cada vez mais frequentes.

Como já dito, foram mais de 500 partituras envolvendo cinema e televisão, além de mais de 100 obras clássicas. Sua filmografia inclui mais de 70 filmes premiados, entre eles estão todos os filmes de Sergio Leone, todos os de Giuseppe Tornatore, alguns de Dario ArgentoJohn Carpenter, Bernardo Bertolucci, Mauro Bolognini, Giuliano Montaldo, Roland Joffé, Roman PolanskiHenri Verneuil e entre outros.

Em 1969, Morricone se tornou um dos fundadores do Forum Music Village, um prestigiado estúdio de gravação. A partir dos anos 70, o maestro conquistou Hollywood, compondo para diretores americanos como Don Siegel, Mike Nichols, Brian De Palma, Barry Levinson, Oliver Stone, Warren Beatty, John Carpenter e Quentin Tarantino.

Com uma quantidade enorme de projetos, fica impossível citar cada um deles aqui. Porém, destacamos aqueles que são considerados indispensáveis. Separamos em blocos, cada ponto crucial da carreira do maestro Ennio Morricone. Neles você poderá conferir um pouco da obra atemporal do compositor.


Vida Pessoal

Em 1950 Morricone conheceu Maria Travia. O casamento do casal aconteceu em 13 de 1956. Travia foi letrista e escreveu letras para complementar alguns trabalhos de Ennio. O casamento rendeu quatro filhos, que são: Andrea Morricone, Alessandra Morricone, Giovanni Morricone e Marco Morricone.

Morricone vive até hoje na Itália e nunca teve o desejo de morar em Hollywood. O maestro também não é fluente em inglês e sempre prefere dar entrevistas em sua língua nativa. Conseguimos presenciar isso quando ele recebeu o Oscar em 2016, no qual seu discurso foi todo em italiano.


Filmes

Listamos 20 filmes em que Ennio Morricone ficou encarregado de produzir originalmente a trilha sonora de cada um deles. Na lista você se depara com os principais trabalhos a um dos mais recentes, que foi “Os Oitos Odiados”.

Por um Punhado de Dólares/A Fistful of Dollars, Sergio Leone, 1964
Por Uns Dólares A Mais/For a Few Dollars More, Sergio Leone, 1965
Três Homens Em Conflito/The Good, the Bad and the Ugly, Sergio Leone, 1966
O Exorcista II – O Herege/Exorcist II – The Heretic, John Boorman, 1977
A Gaiola Das Loucas/La Cage aux Folles, Édouard Molinaro, 1978
O Enigma de Outro Mundo/The Thing, John Carpenter, 1982
Era Uma Vez Na América/Once Upon a Time in America, Sergio Leone, 1984
A Missão/The Mission, Roland Joffé, 1986
Os Intocáveis/The Untouchables, Brian De Palma, 1987
Busca Frenética/Frantic, Roman Polanski, 1988
Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore, 1989
Hamlet, Franco Zeffirelli, 1990
Bugsy, Barry Levinson, 1991
Na Linha De Fogo/In the Line of Fire, Wolfgang Petersen, 1993
Lobo/Wolf, Mike Nichols, 1994
Assédio Sexual/Disclosure, Barry Levinson, 1994
Bulworth, Warren Beatty, 1998
Missão: Marte/Mission to Mars, Brian De Palma, 2000
O Melhor Lance/The Best Offer, Giuseppe Tornatore, 2013
Os Oitos Odiados/The Hateful Eight, Quentin Tarantino, 2015


Algumas Faixas

Com mais de centenas de faixas produzidas, é impossível não cair no clichê e acabar citando o quê Morricone tem de mais famoso em seu trabalho. Porém, é um pecado deixar de mencionar uma faixa épica como “The Ecstacy of Gold” em qualquer lista sobre trilhas cinematográficas.

The Good, The Bad and the Ugly

A Fistful of Dollars

The Ecstacy of Gold

Cinema Paradiso

The Braying Mule (Django Livre)


Prêmios

Com inúmeras produções, é difícil explicar e compreender como Ennio só ganhou um Oscar em toda sua carreira. Obvio, não podemos esquecer do Oscar honorário que o compositor recebeu em 2007, mas mesmo assim continua sendo muito pouco para quem já contribuiu tanto para Hollywood. Nesse tópico você pode conferir todos os prêmios que Ennio Morricone conquistou em toda sua trajetória.

Academy Awards

Oscar Honorário, 2007
Os Oito Odiados – Melhor Trilha Sonora Original, 2016

American Film Institute (AFI)

A Missão – Top 25 de Melhores Filmes Americanos de Todos os Tempos, do AFI, 1986

Globo de Ouro

A Missão – Melhor Trilha Sonora, 1987
A Lenda do Pianista do Mar – Melhor Trilha Sonora Original, 2000
Os Oito Odiados – Melhor Trila Sonora Original, 2016

Globo de Ouro Italiano

Il Lungo Silenzio – Melhor Trilha Sonora Original, 1993

Grammy Awards

Os Intocáveis – Melhor Trilha Sonora Original, 1988
Era uma Vez no Oeste – Melhor Performance Instrumental, 2007
Três Homens em Conflito – Hall da Fama do Grammy, 2009
Carreira – Grammy Trustees Award, 2014

Nastro d’Argento

Por um Punhado de Dólares – Melhor Trilha Sonora Original, 1964
Numa Noite… Um Jantar – Melhor Trilha Sonora Original, 1970
Sacco e Vanzetti – Melhor Trilha Sonora Original, 1972
Era uma Vez na América – Melhor Trilha Sonora Original, 1985
Os Intocáveis – Melhor Trilha Sonora Original, 1988
A Lenda do Pianista do Mar – Melhor Trilha Sonora Original, 1999
Canone Inverso – Melhor Trilha Sonora Original, 2000
A Desconhecida – Melhor Trilha Sonora Original, 2017
I Demoni di San Pietroburgo – Melhor Trilha Sonora Original, 2008
Baarìa – A Porta do Vento – Melhor Trilha Sonora Original, 2010
O Melhor Lance – Melhor Trilha Sonora Original, 2013

ASCAP Awards

Os Intocáveis – Melhor Trilha Sonora Original, 1988
Na Linha de Fogo – Melhor Trilha Sonora Original, 1994
Carreira – Life Achievement Award, 1994
Lobo – Melhor Trilha Sonora Original, 1995

BAFTA Awards

Cinzas no Paraíso – Prêmio Anthony Asquith de Música para Cinema, 1980
Era uma Vez na América – Melhor Trilha Sonora Original, 1985
A Missão – Melhor Trilha Sonora Original, 1987
Os Intocáveis – Melhor Trilha Sonora Original, 1988
Cinema Paradiso – Melhor Trilha Sonora Original, 1991
Os Oito Odiados – Melhor Trilha Sonora Original, 2016

David Award

Gli Occhiali d’Oro – Melhor Trilha Original, 1988
Cinema Paradiso – Melhor Trilha Original, 1989
Estamos Todos Bem – Melhor Trilha Original, 1990
Jona Che Visse Nella Balena – Melhor Trilha Original, 1993
A Lenda do Pianista do Mar – Melhor Trilha Original, 1999
Canone Inverso – Melhor Trilha Original, 2000
Carreira – 50th Anniversary David, 2006
A Desconhecida – Melhor Trilha Original, 2017
Baarìa – A Porta do Vento – Melhor Trilha Original, 2010
O Melhor Lance – Melhor Trilha Original, 2013

Prêmios do Cinema Europeu

Carreira – Lifetime Achievement Award,
O Melhor Lance – Melhor Compositor, 2013

Prémios Los Angeles Film Critics Association (LAFCA)

Era uma Vez na América – Melhor Trilha Sonora Original, 1984
Carreira – Career Achievement Award, 2001


Sem sombra de dúvidas Morricone tem seu nome cravado na história do cinema mundial. Ao lado de John Williams, ele pode ser considerado o compositor mais relevante para a sétima arte. Com 90 anos, há cada ano que passa Ennio vem compondo menos trilhas sonoras. Mas o motivo não é a idade, para termos noção, o compositor entrou no ano de 2018 conduzindo a turnê 60 Years of Music Tour por nove cidades europeias. Cansaço é algo que não existe para ele.

Composições curtas, com estrutura de música pop e instrumentos como violão e guitarra são características presentes nas composições do maestro, e com todo esse estilo musical, Ennio Morricone conseguiu atingir diferentes gerações de espectadores. Com tudo que já fez e ainda pode fazer, o maestro não é apenas um cidadão italiano, mas sim mundial, o que nos resta é reverenciar esse gênio de 90 anos e agradecer por cada composição.

“Mandy”: Cinegnose e a vingança cósmica

Em maio de 2013, o autor Wilson Roberto Vieira Ferreira lançou a primeira versão de seu livro, “Cinegnose”. Ferreira estudou de maneira hermética o cinema americano dentre um intervalo de dez anos (1995 – 2005), percebendo elementos que fizeram alusão místicas ao Gnosticismo.

Gnósticos foram considerados os primeiros heréticos pelo Cristianismo e ao longo do tempo, apresentava nas ideologias, crenças e construções morais diversos conflitos e contradições, expondo desorganização. No entanto, a constante representação dessas narrativas continuou ao longo do audiovisual, tendo como mais recente manifestação o filme “Mandy”.

Dirigido pelo ítalo-canadense Panos Cosmatos, há uma continuidade que o diretor utiliza em “Mandy” que já outrora concebeu em seu primeiro filme, “Além do Arco-Íris Negro”, onde ambos apresentam uma jornada psicoespiritual aos personagens principais; uma experiência lisérgica em contextos expurgatórios.

“Mandy” traz Nicolas Cage interpretando o lenhador Red Miller, que vive em uma cidade montanhosa nos Estados Unidos junto com sua namorada Mandy (Andrea Riseborough). Ambos dialogam no começo do filme sobre uma sinergia cósmica que os cercam. Mandy faz desenhos contextualmente místicos e enigmáticos. A jovem é vista por Jeremiah Sand, um líder cultista gnóstico, que acredita que Mandy possa significar uma resinificação na religião.

Radicalmente, ordena a invasão à casa do casal para ter Mandy para si. Após um pequeno rito de apresentação e experiência sintética, os planos não saem como Jeremiah acreditava, o que o leva a começar a jornada de vingança para Miller.

Visualmente, o filme é montado seguindo uma lógica narrativa explícita: a primeira parte apresenta a interação dos personagens principais e esse grupo proto religioso, chamado de Caveiras Negras. Analisando seus códigos crentes e de fé, nota-se que são gnósticos.

Segundo o livro “The Gnostics: The First Christian Heretics”, de Sean Martin, os Gnósticos são grupos religiosos que acreditam receber conhecimento diretamente de Deus, desrespeitando dogmas estabelecidos pelo Cristianismo, que os classificavam como hereges. Na filosofia e nas artes, Carl Jung, William Blake e Friedrich Nietzsche chegaram a dialogar com o teor gnóstico da religião.

Na Bíblia, há algumas citações em passagens nos livros de Atos e também do apócrifo “Atos de Pedro”, onde fazem referência a um homem chamado Simão, o Mago, uma espécie de feiticeiro da cidade de Samaria, que durante uma conversa com o apóstolo Pedro, tentou comprar o poder da Palavra, quando fora repreendido por Pedro.

Em “Mandy”, Jeremiah possui nome de um profeta bíblico, mas que contradiz severamente as crenças clássicas do Cristianismo. Certo de que o sacrifício era necessário, o longa-metragem passa de um art-house metafórico para um filme estilo trash de Rob Zombie, com um uso constante de violência gráfica e rompante psicológico.

Entretanto, essa mudança é gradativa e funcional. As sequências localizadas na hora final são bem direcionadas e construídas, presentas nas motivações emotivas presentes no argumento. Não há uma banalização da violência e nem uma justificação complexa; é simples, objetiva e guiada integralmente por Nicolas Cage.

E Cage sabe exatamente como ser essas pequenas fórmulas: o personagem que quebra psicologicamente, quase em um transe cósmico (alusões que a fotografia saturada em vermelho e roxo e a visceral trilha sonora póstuma de Johánn Johánnsson fazem), partindo para uma absoluta insanidade, sem nenhum código moral ou ético.

Suas passagens durante a matança, indo aos poucos executando desde seres metamorfos até os líderes do grupo, abrem passagem para uma exibição quase artística da violência. Nessa concepção narrativa, o filme vai aos poucos destilando o descompromisso e mergulhando na fábula da vingança.

“Mandy” apresenta alguns minutos de conflito. Não que a metade final precisasse manter o conceito da mitologia cósmica e da representação lisérgica da fé, mas a personificação em Cage de um Deus punitivo, encaminhando para o final, desgarra-se do sentido mais literário do filme.

Novamente, supracito que a obra não precisa manter compromisso e uma base mais comedida, até porque, “Mandy” tem como principal destaque óbvio essa glorificação da violência e do gore enquanto manifestação artística, representando um homem que já não está mais em um plano social, lúdico, consciente.

Entretanto, é uma obra que pode ser incômoda justamente quando abraça essa mudança abrupta, mesmo que ela tenha sido justificada organicamente. No entanto, a violência e o rompante consciente são os principais núcleos narrativos, que se transformam: na origem, uma abstrata atmosfera lisérgica, atravessando para um escapismo brutal.


49 anos da foto na Abbey Road: A travessia de uma rua e o fim da mesma

Abbey Road, 1969. O quarteto de Liverpool estava vendo o ano, em meio a virada para uma década definitiva dentro do rock, ruir e indicar com maior força a ruptura da banda. Os Beatles construíam naquele ano o penúltimo álbum da carreira, mas o último a ser gravado. Os problemas de gravações do antecessor “Let it Be“, após conturbadas divergências e rumos distintos que todos estavam indicando, propiciaram um cenário instável e incerto. Era como se todos eles estivessem andando em ruas tortas, caminhando a passos falsos, receosos. Mas bastou uma linha reta.

Se pensarmos na famosa e mega citada anedota “Por que a galinha atravessou a rua”, podemos fazer uma aplicação (dentro do contexto histórico e pessoal) aos já famosos Ringo, George, John e Paul. “Por que The Beatles atravessou a rua?”. A obviedade em chegar ao outro lado ganha um adorno quase desesperador na época. O outro lado era o que mais era buscado por todos.

Durante as gravações do álbum, a concepção da capa ainda não havia sido identificada. As ideias primárias eram rasas e não traziam significado para os rapazes e tampouco apelo comercial, insistência da gravadora EMI ao tempo. Paul, então, se juntou com os outros membros e decidiu perceber o local em volta do famoso estúdio Abbey Road.

Ideia de quem?

Era um caminho a todo momento percorrido, familiar. E apesar de direcionar eles a um lugar que resultaria no maior nível de estresse possível de todos, manifestava importância. Então, a ideia da foto. Mas quem poderia registrar a imagem? John, então, viu sua já amada Yoko Ono trazer um contato de um amigo próximo; o escocês Iain Macmilliam.

Fizeram um rascunho, planejando a estrutura de como seria a sessão. Como manejar um ensaio rápido, com poucas fotos, para não estressar o quarteto, que já estava irritadiço. Lennon teria dito que: “Pensei que viríamos para cá gravar um álbum, não posar para fotos”.

Sketch for the Abbey Road album cover photo shoot, 8 August 1969
O esboço de como viria a ser a capa do disco.

Mas para alívio de John, Macmilliam havia planejado tudo. De acordo com o próprio, em entrevista ao jornal britânico The Guardian anos depois, contou que contrataram um policial, para que ele interrompesse o trânsito no cruzamento com autoridade, dando tempo à Iain de subir na escada bem ao centro da faixa de pedestres e fotografasse a caminhada mais famosa da indústria da música.

No entanto, o mesmo fotógrafo, na mesma entrevista, também confessou quem idealizou tudo. “Devo dizer que foi tudo ideia do Paul. Alguns dias antes de fotografarmos, ele desenhou um rascunho de como ele imaginou a capa. O resultado ficou quase que idêntico. Eu tirei fotos deles atravessando em um sentido. Depois, deixamos os carros passarem para melhorar o trânsito. Quando parou novamente, tirei mais fotos deles cruzando a faixa no outro sentido”, explicou Iain.

The Beatles prepare for the Abbey Road album cover photo shoot, 8 August 1969
McCartney arrumando Ringo antes de cruzarem a faixa no outro sentido.

A morte de Paul McCartney e a sandália

Quando os quatro atravessaram novamente a faixa, Iain tirou mais algumas fotos, para tentar angular a perfeição nesse sentido. Mas entre essa segunda passagem e a primeira, algo mudou nas vestes de um deles. Paul, que cruzou as listras brancas descalço no 1º sentido, resolveu usar um par de sandálias brancas para retornar à origem.

Quando essa foto específica saiu, os fãs – seguindo à risca a cartilha de fandom -, teorizaram a morte do guitarrista, que teria sido atingido por um carro e morrido. Com isso, para não prejudicar a sessão e também para criar um mistério, a banda teria colocado um dublê de corpo para cumprir o papel na hora de voltar.

Iconic image: Taken at the same time as the famous Abbey Road album cover in 1969, this picture clearly shows Paul McCartney, third from left, wearing a pair of sandals
Para o outro lado, tudo diferente?

Essa teoria se manteve por bons anos, até que ninguém mais acreditou que um dublê interpretaria identicamente McCartney, apresentando toda a força, técnica e carisma que um dos integrantes remanescentes da banda sempre possuiu.

Mas serviu para valorizar a imagem. Em 2012, a foto tirada por Iain foi mantida em uma agência de comunicação, que colocou à venda em um leilão. A imagem, ainda que menos icônica que sua irmã maior, foi disputada e arrematada em um lance de quase 20 mil libras (quase R$ 100 mil).

A foto a ser escolhida uniu algo que não estava mais acontecendo na banda. A perfeita sincronia, a passada contada de todos, abrindo as pernas em um movimento quase que único. Essa harmonia – lírica, instrumental, poética -, foi o que movimentou toda uma discografia influente e até hoje, ouvida e considerada uma das maiores da história. 1969 foi um ano amargo, difícil para eles.

Pausa para um cigarrinho.

Abbey Road” foi o último álbum gravado pela banda e talvez, o que sacramentou a passagem sonora dos Beatles pelo mundo. O disco até hoje é requisitado e comprado em sua versão de vinil. De 2010 a 2012, foi o bolachão mais vendido do mundo, atingindo mais de 100 mil cópias nesse período.

A dupla “Something” e “Come Together” ainda são singles tocados por bandas homenagens, cantados em karaokês, bares e em casas de amigos. Apresentou uma sonoridade mais sintetizada, com guitarras e efeitos de distorções que, ao mesmo tempo que configurava referências ao componente do hard rock clássico da banda, apresentava um escape de alguns deles, principalmente de Lennon.

O álbum que não leva o nome da banda, nem o nome do disco. É um símbolo, uma iconografia responsável por sintetizar um poder dos Beatles, que naquela ano, era só um resquício. E em resquícios, “Abbey Road” se formou. Contou e apresentou o fim de uma das maiores bandas do planeta. E nada mais justo, do que ter uma das capas mais icônicas de todos os tempos.


O Abraço da Serpente: Xamanismo, Animal de Poder e Ayahuasca

Ao estudar ritos e memoriais de outras religiões, acabei me deparando nesta semana do dia 1º de agosto com o xamanismo. Xamã, dentro de uma sociedade baseada na concepção da religião e da fé, é um indivíduo que através de rituais guiados pelas divindades espirituais, é o sacerdote, com atribuições de comando e também funções de cura e ativação astral.

Em muitos conceitos espirituais, sejam os mais filosóficos ou os mais oníricos, a presença de um ser superior, dotado de sabedoria em abundância, é o que motiva muito dos crentes a buscarem-o em uma situação de reconfigurar-se, de se transformar e compreender aquele saber. Beber da fonte, uma inesgotável riqueza de conhecimentos.

Em minha biblioteca de filmes, veio imediatamente uma obra que traduz em narrativa imagética e textual, esses saberes, às vezes, esquecidos e por conta de intervenções do homem branco e de sua inquisidora religião, sobrepostas. Se trata do longa-metragem O Abraço da Serpente, produção colombiana lançada em 2016, dirigida por Ciro Guerra. Neste filme, narra-se a exploração de um pequeno grupo de homens brancos em busca de uma cura nova, a partir do último sobrevivente de uma tribo, localizada na região amazônica.

Essa relação é construída dentro do roteiro de uma maneira singular e usando o contraste dos dois homens, dotados de crenças, questões e até mesmo limitações próprias, fazendo uso delas para unirem-se em busca dessa sagrada cura. Ao longo do filme, é apresentado em cunho histórico os processos de colonização por parte do imperialismo europeu, da desconfiguração da identidade indígena, causada pela intervenção do homem branco sobre sua cultura, seu comportamento e sua crença.

No xamanismo, há o curador. Através de seu contato com a natureza, com seres espirituais que se manifestam através desse ambiente, processa suas curas e suas criações, entrando em uma jornada de limpeza e de consciência de seu papel perante os objetivos dados ao xamã.

Dentro da prática, há um conceito filosófico e etnomédico chamado “Animal de Poder”. Há diversos mitos, estórias e narrativas utilizadas para apresentar aos não-praticantes esse termo. Em resumo, esse ser é onipresente, porém não dominante. Ele se apresenta a partir da busca do ser humano aos processos de mutação e busca pela sabedoria – em um contato aos ancestros, às primitividades, à sabedoria pré-histórica -, e lhe oferece um saber místico, poderoso e suficiente para transformá-lo, lhe gerando força para quebrar limites e barreiras.

No filme, o animal de poder destacado é do título. No entanto, a subversão do estereótipo da serpente – traiçoeira, peçonhenta -, é esclarecida no roteiro. Segundo as cartas xamânicas presentes no livro “As Cartas do Caminho Sagrado”, da autora Jamie Sams, famosa pela paranormalidade, ilustradas no Brasil pela editora Rocco, a Serpente representa o processo de transmutação.

Carta 06, A COBRA / 0 Poder da Transmutação

Cobra…

Venha deslizando

Com fogo nos olhos

Morda-me,

Desafia-me,

Permita

Que eu me realize.

Seu veneno transmutado

Acende a chama eterna

Abra-me as portas do céu,

Cure-me mais uma vez!

Em O Abraço da Serpente, o xamã Karamakate é o principal guia da viagem do explorador alemão Theo. No entanto, não é uma viagem somente marítima e de locomoção física. És espiritual e pelo xamã, há a busca pela cura que gerará o dom da imortalidade. Poder esse, representado pelo totém da serpente, transmutado e metaforizado na figura do líder curandeiro.

É interessante observar que o argumento do filme se propõe não somente discutir os contrastes, a figura histórica de opressão do homem branco ao ser indígena, da busca pela identidade própria. Ele, em sentido também histórico e linguístico, monta a cultura e o poder religioso em um caráter conciliador, generoso e genuíno.

Quando Theo apresenta seu quadro perigoso, a partir dele não se inicia somente um rito de cura pela doença, mas de cura de seu espírito, que segundo as tradições xamânicas, deve permanecer e seguir em paz, harmonizada ao físico do homem.

Os Caxínauas, etnia indígena que possui tribos espalhadas pelo Acre, possuem entre si uma lenda bastante famosa, a da Jiboia Branca. Em uma comunidade falada nesse conto, os habitantes viviam encantados pelo saber que a Jiboia Branca lhe transmitia, já que era portadora de um conhecimento riquíssimo e praticamente onírico, que resultava na transcedência astral.

E dentro desses saberes, há o poder da cura e transformação através das plantas medicinais. Uma delas é a ayahuasca, uma erva gerada a partir da mistura de diversas plantas e cipós. Mesmo que fora dos ritos originais, a planta é utilizada hoje em dia em outras cerimônias e até mesmo uso individual, com o intuito de encontrarem um momento de clarevidência, sabedoria e bem-estar.

O Abraço da Serpente é uma produção que, de forma inteligente, apresentou todo esse universo longe das representações vislumbradas e arquetipadas, dando ao próprio portador original desse conhecimento e folclore, a oportunidade de apresentar o tom ritualístico. E também, distante da representação gráfica e de argumentação histórica pobre sobre a ocupação do homem branco à sociedade indígena.


Online Shopping in BangladeshCheap Hotels in Bangladesh