“Coringa” dirigido por Todd Phillips é mais uma tentativa de definir a origem do vilão

Em um cenário que não sabemos para onde apontar e afirmar qual é a origem definitiva do Coringa, o cineasta Todd Phillips resolveu criar sua própria história do surgimento do vilão mais emblemático do universo dos quadrinhos. Intitulado apenas como “Coringa”, o longa do diretor se assemelha com alguns materiais já existentes, mas acrescenta novas características ao personagem.

Em uma Gotham situada no começo dos anos 80, nos deparamos com Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um palhaço de aluguel que encontramos pela primeira vez sendo vítima de agressão enquanto trabalha. Ele mora com sua mãe, Penny (Frances Conroy), em um apartamento sujo e nutre uma paixonite por sua vizinha (Zazie Beetz). Além disso, ele sofre de labilidade emocional, um transtorno que causa risadas incontroláveis, usa diversos remédios e se encontra com uma assistente social, tudo isso para manter um estado emocional estável. Apesar de sofrer, Arthur não deixa de sonhar, almejando trabalhar algum dia com stand-up comedy.

O “Coringa” de Phillips possui uma certa ingenuidade com o modo que é tratado pelas outras pessoas, na verdade, são poucas que demostram afetividade por ele. Arthur vive em um eterno ciclo de maus tratos físicos e verbais que atinge seu psicológico, onde fica claro que aos poucos o próprio vai se cansando de ser tratado como chacota.

É impressionante como o personagem aos poucos vai se transformando no que há de pior por conta de uma má atitude tomada por legitima defesa, onde ele não esperava ganhar tanta atenção por tal ação. Com isso, Fleck percebe que seu comportamento resultou em consequências para ele e para a população de Gotham.  No entanto, isso lhe fez se sentir bem. 

Podemos considerar que o Coringa de Todd Philipps é um cachorro louco fora da coleira que de tanto apanhar e perder os sentidos, deixa de ser um fraco e oprimido para ser um narcisista que passa a lutar contra o sistema e as desigualdades que existem em sua cidade. Porém, da forma mais caótica que o personagem pode ser. O cenário do longa-metragem deixa nítido que existe um sistema capitalista que evidência uma escala econômica entre os habitantes da cidade.

Tudo que foi dito no parágrafo acima já teria sido o bastante para a transformação de Arthur Fleck em Coringa, mas como a película faz parte do universo do Batman, o próprio Phillips com a ajuda de Scott Silver  escreve um roteiro que deixa o protagonista bem próximo da família Wayne, com isso presenciamos um momento bem novelão na trama.

O diretor nos faz confundir fantasia com realidade, algo semelhante ao “O Rei da Comédia“, de Martin Scorsese. Robert De Niro que dá vida a Murray Franklin, um apresentador de televisão no qual serve como uma figura heroica para Arthur . Outro aspecto do próprio roteiro é o contraponto que Penny Fleck chama seu filho de “feliz” quando ele está afundado em sentimentos tristes.

Agora, sem dúvida nenhuma, o pico mais alto do filme se chama Joaquin Phoenix, ou o que sobrou dele, já que o ator se encontra exageradamente abaixo do peso. Dito isso, essa característica deixa a sua atuação marcada pelo o seu físico, mas o seu desempenho vai mais além. O ator vem enfileirando uma sequência de trabalhos com uma certa excelência que já o credenciavam para uma indicação ao Oscar de melhor ator. Vale lembrar que Phoenix conquistou o prêmio de melhor atuação em 2017, no Festival de Cannes. O momento agora é outro, o ator finalmente volta para uma cena que o deixa mais exposto ao grande público. 

Comparar a interpretação do Coringa de Phoenix com o de Heath Ledger não convém a nada. Ambos são diferentes. Um se torna o que é por consequência de um estado que o rejeita, já o outro simplesmente é mau por querer ver o circo pegar fogo. No final, os dois conseguem ter a essência do personagem e transmitir visões diferentes para do antagonista do Batman.

Coringa” não deixa claro e muito menos demonstra ser uma contemplação a cultura dos incel (seres que  se definem como incapazes de encontrar um parceiro romântico ou sexual, apesar de desejarem ter), mas por outro lado o longa-metragem flerta com outras polêmicas, como romantizar a morte com uma determinada escala. Isso é um perigo em um filme que mostra o nascer de um anarquista.

O cineasta também entra com outro discurso social com a seguinte frase escrita no diário/caderno de piadas presente no longa: “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se você não tivesse”. Vejo isso de forma positiva e reflexiva. 

Coringa” reflete o sentimento de pessoas que se sentem fracassadas por não terem talento,  mesmo assim se acham especiais e querem fazer justiça com as próprias mãos. Todd Phillips traz esse tema para o filmes de herói transvertido de um filme indie que contempla a arte e principalmente o personagem central da história. 

No meio de tantas histórias de origem do coringa, Phillips tenta entregar mais uma. Em minha visão, não consigo dizer que essa é a definição ideal para o nascer desse ícone da DC Comics. Comparo esse filme como um arco fechado de um quadrinho onde sabemos que não vai existir uma segunda edição. Todd deixa a entender isso quando ele põe uma enfase na palavra ‘fim’ escrita no final da projeção.


Marcus Barreto

Jornalista de bem com a vida, fã de esportes e cinema.

Online Shopping in BangladeshCheap Hotels in Bangladesh