“Infiltrado na Klan” e o manifesto social de Spike Lee

Em uma das sequências do longa-metragem “Infiltrado na Klan“, novo filme-manifesto de Spike Lee, exibido em destaque na 42ª Mostra SP de Cinema e também no Festival do Rio em 2018, Jerome Turner (Harry Belafonte), um militante e ativista, conta a história do linchamento racista que Jesse Washington sofrera em 1916, ao ser acusado injustamente de estupro a uma jovem mulher branca. Cada detalhe mordaz do relato, choca violentamente e põe os negros e negras do Collorado College Black Student Union (União dos Estudantes Negros da Faculdade do Colorado) em uma contínua apreensão por suas vidas.

Lee, nesse momento do filme, mescla esse ambiente de insegurança, medo e revolta com o da iniciação a um novo membro da Klu Klux Klan, ainda sob tutela nacional de David Duke (Topher Grace). O linchamento de Jesse se deu um ano depois de “O Nascimento de uma Nação“, um longa-metragem lançado em 1915, maniqueísta ao nacionalismo e supremacia branca, culminando no renascimento da organização citada nesse parágrafo. Era a reverberação de um racismo, culminando em uma compreensão social dos estereótipos do negro ladrão, selvagem e quase inumano.

Spike Lee e John David Washington nos bastidores de “Infiltrado na Klan”

Spike apresenta em “Infiltrado na Klan” uma narrativa baseada em livro de mesmo nome escrito por Ron Stallworth, um detetive negro interpretado por John David Washington, recém-promovido ao departamento de polícia de Colorado Springs em 1978. Seu maior plano foi se aproximar e infiltrar na KKK, com o intuito de descobrir informações importantes do grupo e prever ataques do mesmo às manifestações lideradas pelo movimento negro na época, ainda sob guarda dos Panteras Negras.

O cineasta é conhecido por utilizar o gênero da crônica social para repercutir uma história de interação social grande, com seus elementos clássicos: as situações cômicas desconfortáveis e, principalmente nesse padrão, as referências a cultura pop negra (como os filmes blaxploitation, música soul, etc). No entanto, o recorte utilizado em “Infiltrado na Klan” acopla em um tecido maior, que traz consigo uma espécie de diacronismo. Ou seja, seja em 1916, em 1966, em 1976 ou em 2016, o filme percorre fatos que não mudaram pela linha temporal dos mesmos.

Logo nas primeiras cenas, o ponto principal do filme é abordado. O explícito racismo participativo à política ao longo das primeiras décadas nos EUA e que percorrera por muito mais tempo após a metade do século, acentuava a necessidade das ações que viriam a seguir. A primeira missão de Ron, enquanto infiltrado, é ir até um evento dos estudantes negros da faculdade de Colorado, onde um líder e membro do Partido dos Panteras Negras palestraria. A missão era coletar informações dos participantes e perceber a reação dos ouvintes e da mesa.

De imediato, Lee renova sua experiência com a cultura e história negra, ao abordar mesmo que levemente, um pouco do pan-africanismo e da identidade negra enquanto sociedade única. O palestrante, identificado como Stokely Carmichael, alterou seu nome para Kwame Ture, junção de dois nomes de líderes de Gana e Guinea, em uma honraria. Nessa missão, Ron conhece Patrice (Laura Harrier), a líder do movimento estudantil negro, que depois nutriria uma paixão, apesar do dilema de não poder informá-la da operação e não se identificar como policial posteriormente.

E logo no discurso inflamado de Kwame, Ron percebe a dificuldade que teria nesse contexto. Através de uma sequência bela que, enquanto Ture (Corey Hawkins) profere palavras impactantes e poderosas, os rostos das pessoas ali presentes vão aparecendo na tela, as apresentando e justificando suas vidas. Homens, mulheres, jovens e mais velhos. Ambos unidos por uma mesma luta, a de sobreviver e reagir. Contra a violência policial, principalmente, preterida pelos mandatos governamentais.

É nesse espectro que Ron se calcifica. Mesmo que não perceba a insegurança que muitos deles possuem em relação a polícia – Spike ao mesmo tempo não externaliza um ódio mas também não pacifica uma relação -, o detetive entende ainda que pode alterar o sistema de dentro para fora, uma tarefa mais difícil que infiltrar-se na KKK.

Após essa inicial interação, passando pela tensão dos conflitos raciais e pelo breve dilema moral de Ron, ele lê um anúncio de jornal o telefone do grupo local da KKK, presidido por Walter Breachway (Ryan Eggold) e Felix Kendrickson (Jasper Pääkkönen). Inicia o contato telefônico e, por um erro de novato, dá seu nome verdadeiro para o grupo. Ron, por motivos óbvios, não pode ir aos encontros presenciais do grupo e por isso, pede a Flip Zimmerman (Adam Driver), parceiro branco e judeu da delegacia, que faça essa interação cara a cara, enquanto ele conversa com o grupo por telefone.

“Infiltrado na Klan” não desalinha de seu contexto histórico-social em nenhum momento, mesmo nos mais brandos. A tensão racial é de fato iminente e em muitas cenas, principalmente nas reuniões do KKK, seja em esfera regional ou nacional, o discurso preconceituoso, recheado de intenções fascistas, são pequenos lembretes de que é historicamente perpetuado livremente pela sociedade.

Principalmente pela figura de David Duke, que ainda está vivo, e que se utilizou da plataforma de então presidente Donald Trump, para restaurar esse cenário de supremacia branca, mesmo que hoje esteja mais voltada para diferentes alvos étnicos e sociais, como imigrantes latinos ou provenientes do Oriente Médio.

Ao final do filme, quando Lee rompe a ficção de vez e mostra imagens das manifestações da alt-right americana em Charlottesvile em 2017, entoando cantos como “Poder branco” e outros odiosos a judeus, negros, LGBT+ e etc, fica evidente o estudo feito pelo diretor e também pelo produtor Jordan Peele, que dirigiu “Corra!“.

Volto a cena onde Jerome fala aos estudantes sobre como o linchamento de Jesse revoltou a sociedade, além de mencionar o filme “Nascimento de Uma Nação“, a montagem se mescla com as cenas dentro de uma igreja onde a iniciação de Ron (na verdade Flip) começa. Ali, é exibido o mesmo filme. Exaltado, urrado. Esse círculo narrativo, mostrando a opressão e o oprimido, o discurso de ódio e o discurso de resistência, é bem construído por Spike, pois ele aborda um didatismo sem banalizar a informação e imprime a mesma como um documento histórico, apesar da história cinematográfica do diretor garantir seu viés.

O cinema, enquanto arte no mais puro significado dessa palavra, serve como questionador e como registro histórico. “Infiltrado na Klan” é um argumento importante sobre as iminentes escaladas do racismo no mundo, especialmente nos EUA. Seja pela plataforma anti-imigração do elegível lá, seja pela contínua repercussão de ódio aqui no Brasil com uma eleição em 2018 cercada pela violência e pelo temor.

Um outro longa-metragem interessante no ano, “Sorry to Bother You“, aborda uma temática quase similar: o protagonista do filme começa a ter sucesso em uma empresa de telermarketing ao usar uma “voz branca” no atendimento. O seu diretor, Boots Riley, foi um dos críticos a “Infiltrado na Klan”. Segundo ele, Lee invalidou a luta do grupo estudantil negro e do partido para focar na ação policial, a tornando unicamente benfeitora da situação.

É uma crítica compreensível e que faz certo sentido, a partir de que o filme se pressupõe a abordar o gênero policial e seguir suas características enquanto às ações práticas das personagens. No entanto, não verificado uma invalidez do grupo, de sua força e de sua participação. Por conta deles, que a KKK planeja os ataques. E é através deles, que Ron realizou a importância não somente legislativa, mas também pela práxis combativa.

Há uma cena chave ao final do filme onde outra abordagem é feita, criando uma realização maior a Ron: o assédio a mulher negra, em maior grau de ocorrência por causa de todo racismo estrutural iminente. É outra consciência, que mesmo em quantidade narrativa mínima, é visceralmente imposta, mais uma vez, atravessando o tempo e se mesclando ao contexto transitivo.

É um filme de recorte fundamental, de mensagem impactante e que material narrativo/histórico importantes para não serem lidos como devem ser. É maior que um retorno de Lee a sua forma ativista e crítica. É uma obra de tempo invencível, que perdura e perdurará por tempo necessário.