“Noite na Taverna” e “O Animal Cordial”

Depois, as aves do mar já baixavam para partilhar minha presa; e às minhas noites fastientas uma
sombra vinha reclamar sua ração de carne humana…
Lancei os restos ao mar…
Eu e a mulher do comandante passamos um dia, dois, sem comer nem beber…
Então ela propôs-me morrer comigo. — Eu disse-lhe que sim. Esse dia foi a última agonia do
amor que nos queimava: gastamo-lo em convulsões para sentir ainda o mel fresco da voluptuosidade
banhar-nos os lábios… Era o gozo febril que podem ter duas criaturas em delírio de morte.

Citação encontrada no envólucro poético “Noite na Taverna“, do ultrarromancista Álvares de Azevedo. Abro o texto dessa forma pois acredito ser uma interessante comparação narrativa. O romancismo, enquanto estilo literário, flerta de maneira constante com o terror. Não necessariamente no gênero como um todo, mas abraça o surrealismo e o torna quase jocoso, anedótico. Um certo escapismo para tornar as situações consideradas inumanas, válidas.

O “Animal Cordial“, filme de terror e suspense dirigido por Gabriela Amaral Almeida, fez sua estréia em salas de cinema durante o Festival de Cinema de Toronto, no Canadá, antes de vir para o Brasil. A cineasta, também criadora do argumento – junto de Luana Demange -, concluiu sua tese de mestrado com foco no gênero do terror e o credita como alegórico e temático à morte, rumando contrário no pensamento, valorizando a vida na verdade.

A história de O Animal Cordial apresenta o restaurante de Inácio (Murilo Benício), um dono egôcentrico, instável e punitivo. No único ambiente do filme, as outras personagens vão se apresentando. A devota e atenciosa garconete Sara (Luciana Paes), o decisivo e independente chefe de cozinha Djair (Irandhir Santos), os clientes remanescentes da noite; o aparente solitário Amadeu (Ernani Moraes), o casal burguês Bruno (Jiddu Pinheiro) e Verônica (Camila Morgad).

Há um conflito iminente já de imediato ao filme, partindo desde as relações entre patrão-funcionário quanto de cliente-funcionário. Tudo reluz em primeiro momento à Sara (enquanto desfavorecida socialmente) e Verônica (financeiramente bem-sucedida, com características blasé e esnobe), como também Djair (nordestino, LGBT e negro) e Inácio (soberbo, egoísta e preconceituoso). Cito essas dicotomias sociais nas personagens pois são essas mesmas que conduzem o véu cinza e conflitante de O Animal Cordial, enquanto impositivo real.

O surrealismo torna vivo e cru, como carne vermelha, a partir do momento que o restaurante é assaltado pela dupla Magno (Humberto Carrão) e Nuno (Ariclenes Barroso). Não somente pelo acontecimento climático, que exige uma reação imediata por parte da vítima, independente de qual seja. Mas pelas consequências dentro de um único ambiente. É o início da guia sangrenta, das cenas calaminosas e aviltantes, sendo base para uma incompreensão lógica.

Gabriela, em entrevista ao programa “O País do Cinema”, do Canal Brasil, diz que o terror não é somente um gênero pelo qual é apaixonada, mas um filtro em como perceber o mundo e suas transformações. Quando estava maturando a ideia de O Animal Cordial, Gabriela presenciava a série de manifestações violentas que aconteciam entre 2014 e 2015; contra alunos, professores, servidores de estado; enfim, pessoas repreendidas pelo direito de manifestar.

Essa violência impositiva, autoritária e inconsequente mede as ações das personagens após o evento conflitante. Para exemplificar o deslocamento social do lugar, funcionando como uma espécie de espaço fantasioso, os artifícios são desde os mais técnicos, como o uso de trilha sonora com sintetizadores e batidas eletrônicas em alta frequência, alusando ao giallo – movimento cinematográfico de terror e fantasia italiano – e o modo slasher, que constitui no modo de eliminação 1 por 1, além da violência gráfica explícita.

No entanto, o longa-metragem brasileiro ultrapassa suas próprias referências ao pontuar duas narrativas: fazer esse espelho em modo temático e irreal de uma sociedade brasileira cada vez mais instável e violenta, seja pelo descrédito à democracia ou pela sintomática discordância de ideias e transformar Sara como um vernáculo de toda essa manifestação e glorificação do absurdo. Que em dado momento, deixa de ser. Todos os acontecimentos, ao beirar o cúmulo, se tornam suscetíveis e compreensíveis.

Contexto, ambiente, espaço-tempo impactando no convívio, concretizando o que estava sendo premeditado. Sara é um espetáculo narrativo porque através dela, micro-histórias de sobrevivência insana estão sendo contadas, valorizando cada quadro, seja por sua estética azul e frívola, ou pela descrença do indivíduo enquanto ser passível de bondade. Animosidade é um componente presente no homem, mas repelido pela natureza social e de relações mantidas ao longo do tempo.

De uma situação quase-cotidiana em um restaurante na esquina de nossa cara para uma regressão cavernal. A carne reconfigura. Morre o tom analógico, metafórico para ascender o literalismo. A composição de O Animal Cordial, enquanto roteiro, montagem, personagens, é uma figura sarcástica, irônica. Ri do agradável, do acolhedor para saciar-se perante a loucura, mesmo sabendo que isso é só questão de uma noite ruim. O “cordial”, pronome do título do filme, é um sarcasmo próprio.

Como conta também Gabriela ao mesmo programa, “Sara é uma personagem que reúne as dificuldades da mulher existir socialmente. A falta da sensualidade, a falta da cordialidade, de ter uma determinada aparência”. Ela assume o protagonismo quando inicia o processo de rompimento das dificuldades, tornando-se necessariamente um fascínio consigo mesma. É de fato, o próprio animal cordial, ao derramar sangue para interromper o aprisionamento e a tortura antinatural.